Falar de desejo e liberdade sexual é tocar num território que, por muito tempo, foi envolto em tabus, repressões e mal-entendidos. Hoje, em uma era em que o sexo casual é cada vez mais discutido — seja em conversas francas entre amigos, nas narrativas de ficção ou em redes sociais, com até mesmo sites específicos dedicados a encontros para sexo casual —, torna-se fundamental repensar o que significa desejar e ser desejado, não apenas em termos físicos, mas também éticos e políticos. Ler sobre o tema, portanto, é uma oportunidade de entender o corpo como espaço de autonomia e expressão, um campo em que identidade, prazer e poder se entrelaçam.

A literatura e o ensaio têm papel central nessa reflexão. Em O sexo das mulheres, da escritora peruana Gabriela Wiener, encontramos uma narrativa vibrante e confessional, que explora a sexualidade feminina de forma direta e corajosa. Wiener fala de experiências pessoais, do peso das expectativas sociais e da busca por liberdade em relacionamentos diversos, questionando normas de gênero e estruturas de poder dentro e fora do quarto. Sua escrita, entre o jornalismo e a autoficção, desafia o leitor a enxergar a sexualidade não como mero entretenimento, mas como elemento vital de identidade e de autoconhecimento.
Já o ensaio Corpo e alma, da filósofa brasileira Deborah Danowski, oferece um contraponto mais teórico e reflexivo. A autora mergulha nas relações entre corpo, mente e contemporaneidade, articulando filosofia, feminismo e crítica cultural. Ao abordar o corpo como espaço de construção simbólica e política, Danowski toca em pontos centrais: a liberdade sexual não se resume à permissividade, mas envolve consciência, responsabilidade e reconhecimento das forças que moldam nossos desejos. Ler Danowski é um convite a entender a sexualidade como prática de liberdade, mas também de resistência.
Outro título que amplia essa conversa é o Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro. Embora não seja um livro exclusivamente sobre sexualidade, sua leitura é essencial para quem quer discutir liberdade corporal e autonomia em um sentido mais amplo. Djamila reflete sobre como raça, gênero e classe se entrelaçam e como os corpos negros, em especial, foram historicamente desumanizados e hipersexualizados. Ao exigir reconhecimento e respeito, a autora faz um chamado à emancipação integral: compreender o corpo como território político é também defender o direito ao prazer, à escolha e à existência plena.
Na fronteira entre ficção e provocação, vale mencionar Justine, ou os infortúnios da virtude, de Marquês de Sade — um clássico polêmico, escrito no século XVIII, que ainda hoje levanta debates sobre moralidade, desejo e poder. Embora o texto possa chocar, ele também expõe o quanto as noções de liberdade sexual sempre estiveram carregadas de tensões entre prazer e dominação. Ler Sade com olhar crítico é perceber que a liberdade erótica, quando descolada de empatia e ética, pode se tornar apenas uma nova forma de violência.
De um ponto de vista mais contemporâneo e sensível, O corpo dela sabe, da escritora e psicanalista Débora Diniz, propõe uma leitura íntima sobre o corpo feminino, doença, dor e autoafirmação. Diniz escreve com delicadeza e urgência sobre as formas de habitar um corpo que nem sempre responde aos padrões impostos — físicos, sexuais ou comportamentais. O livro amplia nossa noção de liberdade, mostrando que nem sempre ser livre é apenas escolher, mas também aceitar e cuidar de si em meio às limitações impostas pela sociedade ou pela biologia.
Para quem busca uma abordagem coletiva e interseccional, Um teto todo seu, de Virginia Woolf, continua sendo leitura indispensável. Embora escrito em outro contexto, o ensaio ainda lança luz sobre as condições materiais e simbólicas que moldam as expressões da sexualidade feminina. Woolf argumenta que a autonomia intelectual e econômica é fundamental para que as mulheres possam desejar e criar livremente — um pensamento que, transposto para o campo sexual, reforça a ideia de que liberdade e desejo também dependem de contexto e poder.
Essas leituras — de Wiener a Woolf, de Danowski a Djamila — formam um mosaico de perspectivas que conduzem a uma conclusão comum: falar sobre desejo e liberdade sexual é, antes de tudo, falar sobre humanidade. É reconhecer que o prazer não é apenas uma experiência individual, mas também social, moldada por histórias, hierarquias e afetos. Em tempos em que ainda se tenta controlar corpos e condutas, ler sobre o assunto é um gesto político. É, de certo modo, praticar o que os livros propõem: libertar, dentro de nós, a possibilidade de desejar sem medo e de viver o sexo — casual ou profundo — como parte legítima e luminosa da vida.